Kadmos (Mit.) - Herói de ciclo Tebano, genearca dos habitantes da Beócia, cuja ação e adoração se estende por toda região mediterrânea, nas ilhas do Egeu, na África e nas costas da Ásia Menor.

O herói é considerado filho de Agenor, rei de Tiro, irmão da Europa, de Cílix e de Fênix. De qualquer maneira, as tradições genealógicas de Kadmos, o relacionam com o litoral sudoeste da Ásia Menor, particularmente a Caria, a cidade de Mileto e Samos. Algumas outras fontes relacionam o herói com o Egito e as Tebas egípcias. O Ferécides menciona como mãe de Kadmos, Argiope, filha do Nilo; os mitógrafos (Kónon, Apolod., 2, 15 et. seq.) localizaram seu pai, Agenor, inicialmente em Mênfis, o Dzédzes considerou o herói, filho de Origo, rei das Tebas de Egito.

(Mitos) – Após o rapto da Europa pelo Zeus, Agenor enviou sua esposa e filhos para encontrarem sua filha; senão deviam abandonar seu país. Quando finalmente suas esperanças se esgotaram, estes colonizaram várias regiões - o Fênix e o Cílix o litoral sul do Egeu, o Tasos e o Kadmos a Trácia. Dali o herói chegou à cidade de Delfos, onde o Apolo o indicou a seguir uma vaca e, onde essa descansasse e sentasse, lá fundar uma cidade. Assim Kadmos fundou Tebas. O herói então quis oferecer em sacrifício; e quando seus companheiros foram pegar água, da fonte próxima, para o sacrifício, o dragão de Ares, que vigiava a fonte, os atacou. Kadmos matou o dragão com uma pedra ou com uma espada, após incitamento de Atena ou do Ares, e semeou seus dentes no solo. A semeação visava criar habitantes para nova cidade, pois o dragão tinha exterminado os companheiros de Kadmos. Da semeação surgiu o clã dos Espartos, que iniciaram uma luta entre si e desta batalha apenas 5 ficaram vivos: o Udeo, o Ctonio, o Pelor, o Hiperinor e o Équion, e os outros se auto-destruíram.

O Kadmos para se purificar da morte do dragão ou dos Espartos, serviu Ares por 8 anos e como recompensa de seu trabalho recebeu por esposa Harmonia, filha de Ares. Na cerimônia do matrimônio, que descreve o Píndaro (Pyth. 3,88), estavam presentes todos deuses e Kadmos presenteou um colar que tinha recebido do Hefesto ou da Afrodite e um vestido tecido pelas Cárites à sua esposa. Deste matrimônio nasceram 5 crianças: o Polidoro, a Ino, a Sêmele – mãe do Dionísio -, a Agave e a Autônoe. Kadmos e Harmonia viveram muitos anos em Tebas. Um oráculo, no entanto, estabelecia que no final de suas vidas iriam para os Campos Elísios, onde se tornariam seus líderes na guerra com os Ilírios; pressuposto necessário para vencerem. Nos Elísios, onde se instalaram após a guerra na Ilíria, ganharam um filho ainda, o Ilírio, e lá se transformaram em serpentes, coisa que foi interpretada como purificação à morte do dragão. Esta transformação foi apresentada pelo Eurípides na tragédia, hoje perdida, “Kadmos”. O Dionísio, Viajante, nos informa que lá se transformaram em pedras que se batiam, quando alguma desgraça ameaçava a região. De acordo com o Estéfano o Bizantino, na cidade de Epidamno, as pessoas mostravam os túmulos de Kadmos e da Harmonia.

Na época helenística foi criada uma outra versão, que segundo esta Kadmos, durante sua vagueação à procura de Europa, chegou a Samotrácia, onde raptou Harmonia, filha de Atlântida Electra. Após o rapto, a mãe procurava a sua filha desaparecida, segundo o modelo do rapto da Perséfone e da procura pela Deméter. O irmão da ninfa, Éetion ou Iassion, iniciou o herói nas cerimônias misteriosas. A cerimônia do matrimônio de Kadmos e da Harmonia era revivida na festividade dos Cabiros na Samotrácia. Trata-se do matrimônio sacro do Cabira Kadmylos e da Cora, que são identificados com o Kadmos e a Harmonia. Esta versão era também conhecida em Creta.

O Nono, repercutindo fontes mais antigas, cita que Kadmos recebeu de Zeus, a Harmonia como sua esposa, pela sua ajuda ao pai dos deuses no extermínio do Tifon. O último roubou o raio de Zeus, quando este transportava a Europa de Sídon à Creta, e o escondeu numa caverna. Kadmos, transformado pelo Pã num pastor, enfeitiçou o Tifon com seu som e conseguiu pegar o raio. O Apolodoro cita que o Tifon tinha pegado os nervos das mãos e dos pés do Zeus e o Musseo liga a ajuda de Kadmos ao Zeus na luta dos Titãs contra os deuses, exatamente como o Hércules o tinha ajudado na gigantomaquia.

Qualidades e adoração: O nome de Kadmos se relaciona com muitas regiões do Mediterrâneo e seus engenhos se relacionaram com muitas cidades gregas. É considerado o inventor da escrita, aquele que trouxe à Tebas a escrita fenícia (Heródoto 2, 49), que se chamou Cadmeu. O mesmo é mencionado como construtor dos altares de Atena e do Possêidon em Tebas, como fundador do templo do Possêidon Hipostenes em Ialyssos, como dedicador de um tripé com inscrição em escrita fenícia à Atena de Lindos (Diod. 5, 58).

De acordo com outras fontes, o herói concebeu a extração e o tratamento de ouro no Monte Pangeu ou em Tasos, inventou o tratamento do cobre em Tebas, o transporte de pedras para Tebas, para Fenícia e para o Monte Pangeu . Também se acreditava que construiu o aqueduto de Tebas e introduziu a lira na Grécia. A acrópole de Tebas se chamava Cadméia e, como nos informa o Pausânias, a habitação do herói era considerada o santuário de Deméter Tesmoforos, e o mesmo seu criado. De acordo com o mesmo viajante, em Esparta existia santuário do Kadmos e em Priena os habitantes eram chamados Cadmii e a cidade Cadme. Em Sídon e em Tiro devia existir adoração do herói, como testemunham moedas com figuras de Kadmos.

Finalmente, em Mileto o herói foi considerado sincrônico do Orfeu, inventor da escrita e o primeiro que escreveu em prosa.

O Kadmos na Arte: O Pausânias nos informa que uma métopa do trono do Apolo nas Amiclas figurava o Kadmos e a Harmonia e o Plínio nos informa que no pórtico próximo do teatro do Pompeu em Roma existia uma figura do Kadmos e da Europa.

O matrimônio do Kadmos e da Harmonia foi tema na decoração de vasos, no que se refere à conhecida forma ilustrada de matrimônios de deuses. O encontro de Kadmos e da Harmonia em Samotrácia foi figurado num fresco da casa do Orfeu em Pompéia. Muitos vasos da Ática e da baixa Itália são decorados com a representação da luta do Kadmos com o dragão de Ares. A luta do herói e de seus companheiros com a serpente, na presença de Atena que os incita, é representada num espelho etrusco do final do século 4o – começo do século 3o a.C.. O mesmo tema decora também as urnas cinerárias etruscas. Finalmente, figuras com o Kadmos decoram as moedas romanas de várias cidades, como: Sídon, Tiro, Samos, Priena.